abril 29, 2006
Exile

Foto de Katarzina Widmanska
Sabes, como eu, que não tem que haver uma explicação metafísica para tudo. E é por isso que há um lugar onde jamais te perco. Nem que seja contra a parede em que me atiras, a cada vez que vens para me fazer marinhar ao espaldar da cama. Nem que seja contra a parede, Querida, a parede em que me lanço quando já nada em mim resiste aos dedos que me fechas em punho. Nem que seja (tu sabes!) atrás das mortes que em mim repetes.
A Loira
abril 26, 2006
abril 22, 2006
Lead the way

Foto de Aaron Hawks
Se te cortar os olhos, há um mar que te vem por trás e te engole inteira. Há uma lasca de espuma que te lambe em minha vez, um rasgão de água que te leva embora. E é por isso que te grito, quando te vejo no lugar de sempre: para te filtrar às marés que não mais importam.
A Loira
Image Things

Foto de Aaron Hawks
Ás vezes a vida vem antes de ti. Outras chega depois, mas tu não vês. E então quando me olhas, já sou só uma língua de corpo cuspida entre a quadrícula fria do chão, uma tira de pele que podia ter sido peixe, duas golfadas de ar mais esbugalhadas a nadar para lá do rebordo da borda que me dá o prumo.
A Loira
abril 14, 2006
abril 09, 2006
Whore of Babylon

Foto de Siro Anton
No reino das mulheres-abelha, há três favos no lugar do cérebro e meia-dúzia de punhados de mel a roçar o colo. No reino das mulheres-abelha, há um ferrão de aço macio, a cortar como manteiga, a luzir como um punhal. Chega-se-lhe a bailar por entre as telhas e é sem escada e sem corrimão, é sem rede de trapezista, sem ecos de querubim. Só de vento e só de pó. Só de asas e algumas penas. Como Deus quis e o Diabo gosta: servido a quente, comido a frio, sem talher nem guardanapo. Crú. Escorrido. Em sangue bem passado. Como convém à carne, quando vôa. Lá: no reino das mulheres-abelha.
A Loira
abril 08, 2006
março 29, 2006
Sem título

Foto de Thomas Kreyn
Ajuda-me a morrer devagarinho. Como se eu fosse só um peixe a resvalar de dentro da boca da água. Sem rasto e sem memória. Ajuda-me a morrer devagarinho antes de mim. Antes de todas as coisas ficarem pelo chão. Tira-me a pele para eu não sentir. Sorve-me o último neurónio para eu nunca mais pensar se dói ou já doeu, se não dói ou vai doer. Abre uma fenda ou um risco, qualquer coisa em mim, não importa. Qualquer coisa por onde se esvaia tudo aquilo que aqui está e ainda me cansa. Pode ser um lastro, um golpe, pode ser tudo mas não pode ser nada! E, sobretudo, (sobretudo!) leva embora tudo o que eu tenho de diferente, todas as coisas especiais que nunca pedi para ser, todas as coisas que me separam ou me ardem. Ajuda-me a morrer devagarinho, por favor. Porque só tu tens o segredo da exacta porção que me leva embora a vida e tudo o mais que se possa parecer com ela.
A Loira
























