setembro 22, 2004

Duas palmas abertas

Jerry Uelsmann.JPG
Foto de Jerry Uelsmann

"Para tudo sobra uma mão. Creio que o sabes. Que nenhuma novidade te acontece verdadeiramente. Tudo tu sabes. Como todos os que param um bocadinho nos dias para descer ao fundo das coisas, antes de retomar o bailado das superfícies. Para tudo uma mão cheia de outra coisa. O oposto do que se tem. O inverso do que se é. O contrário do que se quer. Diferente do que se deseja. Para tudo, como em tudo, sempre duas mãos. Como na vida. E é por isso que toda a escolha é grave: pela mão que era a outra. Porque sobra sempre uma mão, na verdade. Para tudo. Sempre. Que o cuidado esteja então por igual, no olhar das duas palmas abertas. Que a atenção lhes siga as linhas na mesma exacta proporção: a uma e a outra. E que então o corpo se desequilibre. Como sempre se desequilibra. Sempre. Mas que esse pender lhe seja tão leve quanto grave: afinal, sobra ainda e sempre uma mão. A outra. A que em algum momento parecia estar a mais ou ser a menos e ficou para trás. Porque tudo o que sobra paira e tudo o que paira se pode voltar a agarrar um dia. Mais tarde ou mais cedo. Quando menos se espera. Num próximo desequílibrio do corpo. Basta tão só o cuidado de não a deixar cair ao ponto de verdadeiramente tocar o chão.Basta a atenção necessária a que possa ainda assim continuar a respirar. Mesmo que suspensa. Enquanto o corpo se volta a equilibrar para o desequilíbrio. A ela: à mão outra que sempre nos fica em sobra."

A Loira

Publicado por xc em setembro 22, 2004 01:13 AM