
Foto de Alvin Booth
"Deste-me um banho de oiro e fizeste-me esfínge do que nunca pedi. Puseste-me em redor da cintura um par de braços que me prende atrás do tempo. E depois perdeste o exacto ponto da fundição dos corpos em alma e vida e derramaste na liga qualquer coisa, um qualquer fluído insolúvel, que nos quebrou a arte. Hoje gritas ainda a posse do bronze e ficas a bradar no meio da rua louvores de cobre, faíscas de loucura, massacrando-me a pele às tintas dementes com que insistes continuar a tingir-me. Puxas-me pelo viés das esquinas, obrigas-me o anel ao dedo, dizes que o mundo pergunta por nós e que a tesão dos outros precisa da nossa primeiro. Como antigamente. Como sempre foi. Como quando passeávamos incondicionais liberdades por entre os mortais como nós, e acordávamos com a nossa gula sôfrega a anestesiada fome dos outros.
Repetes tudo o que preferia que calasses. Lembras-me tudo o que não posso lembrar para que não se me agrave o sem perdão da perda. Mas é tua (sempre foi tua!) a arte da teimosia, essa que me obriga hoje a teimar mais do que tu, essa que me obriga ao sacrifício em nome do castigo maior que te quero: o esplendor das estuárias perfeitas, não vai voltar-nos nunca mais, Querida!... Jamais. A tua memória será, pela parte que me toca, o único lugar deixado à revisitação. Breve e apagada. Incapaz de nitidez. Como tudo o que perde o recorte da realidade."
A Loira
Publicado por xc em outubro 7, 2004 10:37 AM