
Foto de David Fokos
"Como se fosses noite e me atirasses
uma corda de músculos e rosas.
Como se fosses noite e me deixasses
deslumbrado com todas as sombras,
com todos os silêncios,
com todos os passeios de mãos dadas com o impossível.
Com todos os minutos,
Os lentos, os belos, os terríveis minutos
que se escoam com a angústia nas escadas.
Como se fosses noite e acordasses
todos os olhares furtivos aos bancos vazios,
todos os passos hesitantes que ninguém segue
mas que deixam na rua deserta,
na cidade ausente,
o arabesco triunfal de um arcanjo que passa,
o rasto vitorioso dum condenado que dança,
rindo dos deuses que o julgaram."
... Chamava-se Ary dos Santos. Era poeta, "mas castrado, não". Era poeta com a
boca: comia palavras, cuspia palavras, lambia-as como quem engole, mordia
sabores sem mastigar. Faz hoje 20 anos que se despediu daqui. Não gostava de
viver entre margens. Tomou uma estrada larga e foi desafiar outras moradas,
outros arcanjos, outros deuses - lá, onde se imagina que fique o abrigo dos
audazes.
A Loba
Publicado por xc em janeiro 15, 2005 07:09 PM