
Foto de Tamaki Obuchi
Sabes desse perigo repetido que vem depois de todos os quereres? Desse, que chega por cada farrapo de vontade incompleta, por cada coisa pressentida antes que sequer tenha tempo de se insinuar…? Porque eu posso lançar um braço ao través do espaço e cobri-lo como posso…com o que estiver mais à mão… com o que houver mais ao pé… Há sempre um manto que nos cobre. Mesmo que seja um fiapo de cortina. Um corte de reposteiro. Uma braçada de cobertor. Mas quando o passo é cigano, quando o gesto é andarilho, creio que a noite serve bem: para encobrir a tempo qualquer sombra de perigo que te possa desafiar os dias.
A Loira

Foto de Maria Gracia Subercaseaux
"De todos os lugares, de todas as falas, de todos os esquecimentos e ternuras, é aqui que te quero: sem enfeites, contra a maciez do negro, vertida em espera diante das tuas pupilas de vinho tinto. Exactamente aqui onde me alocas: num desequilíbrio de divã, num vão de parede, num vagar feito sem roupa. Numa aproximação partida e muda, gasta em cansaços por chegar."
A Loira

Foto de

Foto de Pawel Sujecki
Won’t be very long
You will look for me
And I’ll be gone

Foto de Pawel Sujecki
When I feel like I'm on my last go round
See me through
See me through one day at a time
See me through when things get heavy
On my mind
Van Morrison

Foto de Pawel Sujecki
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
Bob Dilan
Ficas ao longe, a endurecer latejares em espera, a adiar manhãs e a arrastar-me a ausência. Como quem me trava o pé à estrada, como quem me priva de um correr em curva.
Fico eu, como uma montanha partida, uma forma de ossos nús que tu não olhas e não despes. E por entre as rugas da pedra, olho (uma a uma) cada fissura de demoras e descompassos... como quem receia um qualquer vento que te possa levar daqui. Como a demasia do tempo sobre as rochas grandes!... Como a erosão das eras sobre os corpos que recusam mover-se do lugar onde se querem.
A loira

Foto de Yves Noir
Every day I spend my time
Waitin’ here to find the sign
That I can understand

Foto de Deutsch Philippe
Tens um peso enorme nos ombros
os braços que pareciam voar
tu continuas a falar de amor
mas qualquer coisa deixou de vibrar
os teus sonhos de infância já foram
velas brancas ao longo do rio
hoje não passam de farrapos
feitos de medo, solidão e frio
Jorge Palma, D. Quixote Foi-se Embora

Foto de John Croft
I can’t feel
Feel a thing
I can’t shout
I can’t scream
Breathe it out
Breathe it in
All this love
From within
I won’t cry when you say goodbye
I’m out of tears
I won’t die when you wave goodbye
I’m out of tears
Out of tears
I won’t drink
I won’t eat
I can’t hear
I won’t speak
Let it out
Let it in
All this pain
From within
And I just can’t pour my heart out
To another living thing
I’m a whisper
I’m a shadow
But I’m standing up to sing
I won’t cry when you say goodbye
I’m out of tears
I won’t die when you wave goodbye
I’m out of tears, yes I am
I won’t cry, I swear my eyes are dry
I’m out of tears
I won’t cry, I’m going to tell you why
I’m out of tears
Out of tears
Out of tears
De Out of Tears, Rolling Stones

Foto de Evegeny Shaman
Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz Só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado
do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o Presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado
Irrompe assim a luz entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito
Com essa luz do grito é que nós vemos
que o Passado e Futuro não são nada
apenas o Presente é infinito
David Mourão Ferreira, de "O corpo iluminado"

Foto de Polhirev Alexey
Raios te partam por esta coisa que deixas em mim e que tanto tem de delicioso como de proibido...raios te partam pelas avalanches de sentimentos que provocas e que não me apeteciam... raios te partam pelas palavras, as imagens, os gestos, a voz... o conjunto de ti... raios te partam pelos momentos inesquecíveis que tatuaste no meu cérebro na secção recordações e que teimam em entranhar-se com sede de mais... raios te partam por gostares de pores-do-sol na praia, de histórias inventadas, de cabanas de madeira e bolos de chocolate... raios te partam por todos os estragos que vais provocar... e raios me partam a mim por te amar...
In “Cérebro Semi-Adormecido” de SM

Foto de Sharky
O que podia ter sido é uma abstracção
permanecendo memória perpétua.
Ecoam passos na memória
ao longo do corredor que não seguimos
em direcção à porta que nunca abrimos.
T. S. Elliot, de "Burnt Norton"

Foto de Christopher Voelker
E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo...
David Mourão Ferreira, em "Orquestra, flor e corpo"

Foto de Grzgorz Raczynski
É sem nome, sem corpo, sem rosto, essa metade de mim a que chamam amor. É sem direcção, sem casa, sem rasto. E não! Não me visita, não me leva, não busca e também não me prende, não me controla, nem me domína. Não tem voz nem cheiro, mas eu tomo-lhe o pulso várias vezes ao dia e sei que vive. Bate hora a hora ao centro do meu peito. Sem som. Sem nome. Só assim: a respirar em mim.
A loira

Foto de Jeffery Scott
Não sou nada… arrancas-me à solidão da minha indiferença para me lançares numa montanha russa de sentimentos que só acaba com a loucura do desespero… deixas-me nú, indefeso, incapaz de enfrentar algo que antes de ti nem conhecia… Não sou nada… nunca serei nada para ti… por mim…
Sofia Mauricio

Foto de Maury Perseval
Link via Artnudes
Solicito que abras a cancela baixa, que faças meia dúzia de degraus ao meu encontro e fujas comigo para dentro de um canteiro a coberto da luz que ainda houver na rua. Solicito que esgravates a terra e me faças uma cama de torrões macios e me ames ali. Grão a grão!... Enquanto o mundo dorme, esquecido das liberdades que deixou soltas ao correr da madrugada. Tu e eu: dois gatos vadios a morar no escuro. A preparar o reino. A ensaiar o pulo. Para quando soar o aviso que o tempo enfim chegou.
Solicito, em suma, que tomes de assalto os lugares de ninguém que trago no peito reservados a ti.

Foto de Georg Suturin
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite.
Obrigado Maria pelas palavras da Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto de Georg Suturin
É quando as mãos me falham e parece já não haver mais por onde inventar, que eu quase me canso e me vergo, quase lastimo não ter dobrado cada instante em que te tive ao alcance da boca, não ter feito em dois cada beijo onde te achei, não ter desdobrado mais olhos, estendido mais vontades, rasgado mais corpo, partido mais gritos, sugado mais língua. Queria: ter exagerado ainda mais, abusado muito mais, a mesma desmesura das palavras que continuam a pertencer-te por inteiro. Queria ter-te enterrado mais fundo, ter-te preso mais vezes, apertado por mais tempo!... Queria. Queria ter-te feito tudo em dobro, que era para ver se esta falta em que me trazes doía menos, se suportava melhor, e não me desesperava como agora: quando parece já não haver mais por onde inventar e as mãos me falham... e tudo me falha menos este continuar de longe a querer mais de ti.
A Loira

Foto de Yuri Bonder
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Herberto Helder, in Poesia Toda

Foto de Florian Stollinger
Não há nenhuma consolação no silêncio,
não repitas os enganos nem os
esquecimentos.

Foto de John Stillwagon
Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo
de "Há dias em que mais vale...", Ala dos Namorados

Foto de Itzhak Ben Arieh
Moro num covil cavado ao topo, onde os ventos uivam e as nuvens acasalam de frente para o sol do rio. Tenho de um lado um corrimão íngreme e do outro um simples abismo cortado a pique na pele da cidade. Quando chove as paredes apertam-se, róiem as assoalhadas e só deixam a minha cama. Intacta. Desfeita, mas intacta. Desenho vincos na rodilha dos lençóis e quando me canso falo com as formigas e com as lagartixas, pendurada no algeiroz e no telhado. Ás vezes janto com dragões, outras ouço histórias com bico de corvo, que é para ver se o sono chega e as noites pesam menos. Danço sem plateia por detrás de janelas seladas. Como quatro bagos de romã e bebo infusões sem nome. Só porque também tenho sede e às vezes me chegam fomes. Penso que podias transferir para aqui os teus grilhões. Podia ser casa nos espaços de tudo o que ainda te prende. Dou-te uma toalha lavada, três bolhas de sabão azul e branco e um par de meias grossas. Tenho para ti uma boneca zarolha, um cavalo de pau sem uma perna e um pião sem guita. Posso entreter-te os dedos mas não sei tirar-te o frio. Divido contigo as falas do sono e o que restou da adega. Mas moro num covil empinado ao sul. É inclinada a rua que vem dar aqui. E eu não sei se te agrada o suficiente para te esperar o esforço.
A Loira

Foto de Alvin Booth
"Deste-me um banho de oiro e fizeste-me esfínge do que nunca pedi. Puseste-me em redor da cintura um par de braços que me prende atrás do tempo. E depois perdeste o exacto ponto da fundição dos corpos em alma e vida e derramaste na liga qualquer coisa, um qualquer fluído insolúvel, que nos quebrou a arte. Hoje gritas ainda a posse do bronze e ficas a bradar no meio da rua louvores de cobre, faíscas de loucura, massacrando-me a pele às tintas dementes com que insistes continuar a tingir-me. Puxas-me pelo viés das esquinas, obrigas-me o anel ao dedo, dizes que o mundo pergunta por nós e que a tesão dos outros precisa da nossa primeiro. Como antigamente. Como sempre foi. Como quando passeávamos incondicionais liberdades por entre os mortais como nós, e acordávamos com a nossa gula sôfrega a anestesiada fome dos outros.
Repetes tudo o que preferia que calasses. Lembras-me tudo o que não posso lembrar para que não se me agrave o sem perdão da perda. Mas é tua (sempre foi tua!) a arte da teimosia, essa que me obriga hoje a teimar mais do que tu, essa que me obriga ao sacrifício em nome do castigo maior que te quero: o esplendor das estuárias perfeitas, não vai voltar-nos nunca mais, Querida!... Jamais. A tua memória será, pela parte que me toca, o único lugar deixado à revisitação. Breve e apagada. Incapaz de nitidez. Como tudo o que perde o recorte da realidade."
A Loira

Foto de Alvin Booth
"Há cordas grossas por cada veio teu. Amarras esticadas ao músculo. Garrotes estanques, anilhas de aço, rótulas de pedra e sal. Pernas de mastro, assim és tu!... Então, firma-me a espiral magra no vértice. Como quem espeta um estandarte. Como quem crava uma bandeira. Reclama em mim tudo o que te pertence. Com pés nús de corsário. Com o molejo hirto de um corpo mais sábio dos equilíbrios do convés. Traz-me ao meio do triângulo e pede-me as manhas do camaleão, que eu dou. Todas. Uma a uma. As que te pertencem e são tuas. Protege-me e reclama-me. Protege-me e exige-me. Protege-me e toma-me. Protege-me e assalta-me. Como quem faz saber das vontades que tem. Como quem vem marear derivas entre a segurança de duas coxas hirtas. Como quem me puxa ao vértice de duas separadas pernas de mastro, onde uma tempestade maior me desaba o escorregar contigo."
A Loira

Foto de Patrick Gagne
"... Podia construir contigo um jogo de aparados golpes macios... Ser-te atenta... reagir instintos de instante a cada toque da tua língua... responder-te da única forma que sei: disparada no pico extremo dos efeitos que me atiças. Desalmada e com o cérebro esquecido no tapete, aos pés da cama. Podia jogar contigo desafios de causa e feito. Alucinar em parceria do outro lado da mesa onde sempre se sentam cumplicidades. Podia engendrar contigo um código matreiro. Dar-te coisas. Querer coisas. Podia!... Mas, entretanto, tu estendes corpos em paralelo e eu deixo a canção avançar-nos. Como se fossem os três dedos de voz com que me entras. Agora. Junto à música. Por instinto. Esquecido o cérebro. No desalmado instante em que alucinamos já: eu e tu."
A Loira

Foto de Wiejewiatr
"E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior."
Herberto Helder

Foto de Wiejewiatr
"O berço? O cadafalso? O endereço
que traz por dentro o sonho ou o terror?
Pela cor do lençol te reconheço,
ó máquina, tão branca, do amor!"
David Mourão Ferreira