
Foto de Thomas Kreyn
Ajuda-me a morrer devagarinho. Como se eu fosse só um peixe a resvalar de dentro da boca da água. Sem rasto e sem memória. Ajuda-me a morrer devagarinho antes de mim. Antes de todas as coisas ficarem pelo chão. Tira-me a pele para eu não sentir. Sorve-me o último neurónio para eu nunca mais pensar se dói ou já doeu, se não dói ou vai doer. Abre uma fenda ou um risco, qualquer coisa em mim, não importa. Qualquer coisa por onde se esvaia tudo aquilo que aqui está e ainda me cansa. Pode ser um lastro, um golpe, pode ser tudo mas não pode ser nada! E, sobretudo, (sobretudo!) leva embora tudo o que eu tenho de diferente, todas as coisas especiais que nunca pedi para ser, todas as coisas que me separam ou me ardem. Ajuda-me a morrer devagarinho, por favor. Porque só tu tens o segredo da exacta porção que me leva embora a vida e tudo o mais que se possa parecer com ela.
A Loira

Foto de Jan Bengtsson
Sento-me à espera de um dia, no fim do tempo, me parecer menos comigo.
A Loira

Foto de Sabine Leve
Como um chão em esquina erguido ao vértice do canto. Como uma mão travessa um pouco mais adiantada. Só um tudo nada, mais adiantada. Apenas. Só. Algures entre a nuca baixa e os cabelos emaranhados por vazios sem data. Para me mostrares, muda, dois dedos espetados em haste. Dois dedos apenas. Dois dedos e só. Para me lembrares, sem voz, o focinho da besta em festa, e a dança na arena que abandonei nos arrebaldes do mundo, e os cornos de esguelha que ainda me espetam a alma ao fundo. Ás vezes. Só muito de vez em quando. Como agora. Quando és gesto, mas não me falas. Assim.
A Loira

Foto de Cirenaica Moreira

Foto de Lilya Corneli
... Se eu rasgar uma tira de umbigo para te fazer de lençol... Dizes comigo que temos uma cama de linho ralo?... E se eu arrancar uma gaze do meio do peito? Dizes que sim, que dormimos pendurados numa crina de vento e cuspimos pela boca rolas de espuma branca como o mar?... E dizes que de virgens nos bastam os três caroços de azeitona que chupámos ao jantar? Que é farta a mesa quando larga a cama... Dizes? ... Mesmo sabendo que só ta farei de lavado se remexer entre o peito e tirar para fora o que me arde em cânfora rente ao umbigo?... Dizes?!... Dizes, sim. Porque és feito do mesmo que eu.
A Loira

Foto de Lilya Corneli
Sim, eu sei, que quando me entornas a face ao chão é só para que me pulse mais claro um certo eco de terra que, em noites de lua vaga, crês ainda ser um chamado de onde não sei como fugir.
A Loira

Foto de Aldo Palazzolo
"Não me desafies"... Não me desafies a palavra. Não me desafies tu agora, Xupacabras...! Não me desafies ou de outro modo eu falo. Sim, começo a falar-te e não sei se é isso que quero. Gosto deste silêncio: desta mera pressuposição que um e outro, tu e eu, fazemos da presença um do outro. E só por isso continuamos, eu e tu. Só por isso nos encontramos aqui...traçando tangentes invisíveis... quase inefáveis, não fora o facto de tu saberes que venho e por isso continuares a publicar... e de eu saber que tu publicas, independentemente de mim, e por isso vir. Vir sempre. Vir eu também. Quase sempre. Quando me falta o tempo que não quero dar-me a mim e o dou então a ti. Gosto de ver o que mostras. E nada dizer. Ou antes, nada te dizer. Dizê-lo tão só por mim a dentro a partir do que me sugere aos sentidos e á intuição aquilo que aqui vejo. Gosto de vir de noite, rente á madrugada...vaguear sem lógica neste teu labirinto de histórias que se imprimem na superfície das imagens. Gosto de te pensar assim como uma espécie de Alquimista. Prefiro esta nossa cumplicidade á amizade. Prefiro assim. Gosto assim. E agora regresso ao meu Território. Preciso de dormir. Preciso de descansar um pouco e, quem sabe, talvez pensar porque foi que ganhei voz esta madrugada e pela primeira vez denunciei a minha presença, até aqui apenas mais um acrescento ao volume dos números que as estatísticas te atribuem... e talvez seja apenas e tão só por isso: "Não me desafies"!...
A Loira
Post de 2004.03.03

Foto de Fabiola Narváez
"Y así fue como empezó a descender, fango abajo,
por entre las raíces encrespadas de los árboles...
Hizo pie en el lecho de un antiguo mar y reposó allí largamente,
entre pepitas de oro y caracolas milenarias.
Vertientes subterráneas la arrastraron luego en su carrera
bajo inmensas bóvedas de bosques petrificados".
De La Amortajada, M.Luisa Bombal

Foto de Fabiola Narváez
"El día quema horas, minutos, segundos...
Fatigada, anhela sin embargo, desprenderse
de aquella partícula de conciencia que la mantiene
atada a la vida y dejarse llevar hacia atrás,
hasta el profundo y muelle abismo que siente allá abajo.
Pero una inquietud la mueve a no desasirse del último nudo.
Mientras el día quema horas, minutos, segundos".
De La Amortajada, M.Luisa Bombal

Foto de Fabiola Narváez
"Pero, nacidas de su cuerpo, sentía una infinidad de raíces
hundirse y esparcirse en la tierra como una pujante telaraña
por la que subía temblando, hasta ella,
la constante palpitación del universo.
Y ya no deseaba sino quedarse crucificada a la tierra,
sufriendo y gozando en su carne el ir y venir de lejanas,
muy lejanas mareas; sintiendo crecer la hierba, emerger islas
nuevas y abrirse en otro continente la flor
ignorada que no vive sino en un día de eclipse.
Y sintiendo aún bullir y estallar soles, y derrumbarse,
quién sabe dónde, montañas gigantes de arena".
De La Amortajada, M.Luisa Bombal

Foto de Peter Berghman
Se tu me amasses, Meu Bem, virias com a noite, sentar-me em cima da tua boca e soprar parágrafos de Chile a hálito quente para dentro de mim.
A Loira

Foto de Galba Sandras
Deixas, Querida, meia dúzia de rastos serpenteados sobre a linha. E enrolas camas invisíveis à guilhotina do olho parado. Parado a ti. Parado à dança de quem se partiu pelas dobras. E hoje, Querida, tens um queixo murcho, dois braços de pena, pernas tristes e fechadas, e equilibras-te sozinha sobre a sua própria ponta. Emersa na doce comoção dos abandonados. Traída, no final dos últimos acertos. Implacáveis. Frios. Como um vago efeito do mesmo transposto em patamares. Até ficar de ti só um magro perfil a boiar no negro.
A loira

Foto de Ted Preuss
Uma folha em revés do lugar que te está guardado. Manso, eu disse. Um pouco mudo e nem sempre distendido. Talvez. Espalmado, eu disse. Distante e em rojo pelas contracções perfeitas. Em eco. Brando. Tranquilo, eu disse. Manso e quieto, ainda assim. Mesmo que extremo. Como um tremor ao fim da folha, uma nervura à raiz da queda. Súbita, mas planada. Ali: no exacto lugar onde as grandes coisas cabem sem ajuste. Entornadas ao húmus. Milimetricamente suspensas dois dedos acima da erosão dos passos.
A Loira

Foto de Ted Preuss
Uma roda em viés ao lugar onde te aguardo. Com duas mãos espalmadas ao chão. Que é para a cada pulsar da terra te sorver uma ou outra batida de coração. Num eco. Tranquilo. Longo, como o sono. Manso e quieto. Preso ao ritmo que é o teu. Em eco. Tranquilo. Bailado a espaços na cadência que nos deixas. Qualquer que ela seja. Eu saberei. Com as mãos. Espalmadas. E é tranquilo porque sei que sempre hás-de vir-me pelo vibrar dos dedos.
A Loira

Foto de Bjorn Oldsen
Parou o rumor longínquo dos teus atabaques rubros que sempre se fez ouvir aqui: na margem direita deste rio errado. Parou. E eu não sei se desististe de me encantar, ou se fui só eu que ensurdeci depois do estrondo maior do tempo. De tanto fixar o olho no teu pulo de onça, de tanto te dançar em céu vazio. Mas ainda vejo, alçado ao ar, o vermelhão do manto com que segues sinalizando a tua tribo. Nas noites com sol. Quando me esqueço por instantes das coisas que teimam em me correr às avessas.
A Loira

Foto de Tamaki Obuchi
"Sabes desse perigo repetido que vem depois de todos os quereres? Desse, que chega por cada farrapo de vontade incompleta, por cada coisa pressentida antes que sequer tenha tempo de se insinuar…? Porque eu posso lançar um braço ao través do espaço e cobri-lo como posso…com o que estiver mais à mão… com o que houver mais ao pé… Há sempre um manto que nos cobre. Mesmo que seja um fiapo de cortina. Um corte de reposteiro. Uma braçada de cobertor. Mas quando o passo é cigano, quando o gesto é andarilho, creio que a noite serve bem: para encobrir a tempo qualquer sombra de perigo que te possa desafiar os dias."
A Loira

Foto de Maria Gracia Subercaseaux
"De todos os lugares, de todas as falas, de todos os esquecimentos e ternuras, é aqui que te quero: sem enfeites, contra a maciez do negro, vertida em espera diante das tuas pupilas de vinho tinto. Exactamente aqui onde me alocas: num desequilíbrio de divã, num vão de parede, num vagar feito sem roupa. Numa aproximação partida e muda, gasta em cansaços por chegar."
A Loira

Foto de

Foto de Nana Watanabe
I got a bad side
But turning my back on you

Foto de Nana Watanabe
I got a good side
Is a side of me you’ll never see

Foto de Galba Sandras
"Passo adiante de cada fêmea tombada como quem só reconhece depois da hora o quanto foram necessárias - mais que os corpos - as quedas. Mas sei,sim!... Sei que se agravaram todas as coisas de que venho acusada. Porque parece sempre um pecado maior, aquele que se comete entre seres da mesma espécie. Parece sempre um crime pior aquele que faz tombar iguais."
A Loira

Foto de Galba Sandras
"Sim, eu escutei quando falaste e ouvi o que disseste. Ouvi-te com o ouvido aberto a um faro adiante: mais astuto, mais aguçado, mais ciente. Contaste as ocorrências, dissecaste os casos e alinhaste-os sobre o tampo frio da métrica, isolaste-os de cada partícula de subjectividade, até obteres uma fórmula limpa dentro do retorcido intestino dos tubos de ensaio, por onde saem as leis universais, aquelas que assentam até mesmo sobre as assimetrias, aquelas que continuam a caber perfeitas e exactas nas formas irregulares. E pousei os cotovelos no balcão do laboratório. Apoiei o queixo na palma da mão e fiquei a balançar os pés, enquanto te via trabalhar. Vi o teu cirandar de bata branca, muito sábia, muito certa, muito fluida de todos saberes do lado prático da vida. E deixei enfim que falasses com voz de esquadro. Concluíste por entre evidências, factos, observações e experimentos vários, que «quem vai ao outro lado do mundo, nunca mais volta». Ou se volta, «nunca mais volta para ser igual». Como eu!... Como eu que vim dar fundamento à tua teoria: eu que fui e nunca mais soube voltar. E sabemos agora – eu sem remo e tu ao largo – que as camas das meninas são ilhas e que, rente à raiz, germinam braços de floresta, ecos de vozes, torsos mátrios, que partem o mundo em dois e nos desassossegam a vontade sempre em direcção à mesma metade sem retorno: de onde nunca mais se regressa ou então nunca mais se volta igual."
A Loira

Foto de Galba Sandras
"Eu não tenho muito. Tenho quase nada. Só a sombra do meu corpo sobre a estrada, galhos secos e pó de esquina. Eu só tenho becos e perguntas, reboliços descontínuos, coisas poucas, quase nada. Eu não tenho fio nos versos mas também não sei dos outros universos que carrego em paralelos. Eu não tenho elos nem correntes, os meus fantasmas sempre foram diferentes. Eu não tenho ilhas nem tesouro, nem lugar em casa para desaforos, nem espaço para lamentos. Eu não tenho vento que me agarre, nem diabo que me aguente. Eu tenho convites e chamo por ti. Eu só tenho pouco tempo, mas posso esperar por ti. Se não demorares mais que a vertigem e os limites porque daqui a pouco é outro dia. E eu tenho vontades vadias, recusas e teimosias. Tenho gestos sem padrão e metades de giz traçadas pelo chão. E não compro o que toco, não pago pelo que vejo, nem suplico coisas vãs. A minha alma e a minha culpa dormem juntas e nunca aprendi a rezar entre os lençóis nem a pedir de olhos fechados."
A Loira

Foto de Marko Mueller
E o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada

Foto de Christo Ivanov
Let me see you
Stripped down to the bone's

Foto de Pawel Sujecki
Won’t be very long
You will look for me
And I’ll be gone

Foto de Pawel Sujecki
When I feel like I'm on my last go round
See me through
See me through one day at a time
See me through when things get heavy
On my mind
Van Morrison

Foto de Pawel Sujecki
How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?
Bob Dilan
"Ficas ao longe, a endurecer latejares em espera, a adiar manhãs e a arrastar-me a ausência. Como quem me trava o pé à estrada, como quem me priva de um correr em curva.
Fico eu, como uma montanha partida, uma forma de ossos nús que tu não olhas e não despes. E por entre as rugas da pedra, olho (uma a uma) cada fissura de demoras e descompassos... como quem receia um qualquer vento que te possa levar daqui. Como a demasia do tempo sobre as rochas grandes!... Como a erosão das eras sobre os corpos que recusam mover-se do lugar onde se querem."
A loira

Foto de Yves Noir
Every day I spend my time
Waitin’ here to find the sign
That I can understand

Foto de Yves Noir
Right now is where you are
In a broken dream

Foto de Deutsch Philippe
Tens um peso enorme nos ombros
os braços que pareciam voar
tu continuas a falar de amor
mas qualquer coisa deixou de vibrar
os teus sonhos de infância já foram
velas brancas ao longo do rio
hoje não passam de farrapos
feitos de medo, solidão e frio
Jorge Palma, D. Quixote Foi-se Embora

Foto de John Croft
I can’t feel
Feel a thing
I can’t shout
I can’t scream
Breathe it out
Breathe it in
All this love
From within
I won’t cry when you say goodbye
I’m out of tears
I won’t die when you wave goodbye
I’m out of tears
Out of tears
I won’t drink
I won’t eat
I can’t hear
I won’t speak
Let it out
Let it in
All this pain
From within
And I just can’t pour my heart out
To another living thing
I’m a whisper
I’m a shadow
But I’m standing up to sing
I won’t cry when you say goodbye
I’m out of tears
I won’t die when you wave goodbye
I’m out of tears, yes I am
I won’t cry, I swear my eyes are dry
I’m out of tears
I won’t cry, I’m going to tell you why
I’m out of tears
Out of tears
Out of tears
De Out of Tears, Rolling Stones

Foto de Evegeny Shaman
Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente a falta
Não a que mais reluz Só a mais alta
Só a que nos faz ver o outro lado
do bosque onde o Futuro e o Passado
defrontam o Presente que os assalta
num combate indeciso a que nem falta
o sabor de saber-se ilimitado
Irrompe assim a luz entre os extremos
da mesma renovada madrugada
E vibra a cada instante um novo grito
Com essa luz do grito é que nós vemos
que o Passado e Futuro não são nada
apenas o Presente é infinito
David Mourão Ferreira, de "O corpo iluminado"

Foto de Konrad Gos
E condenaram-me a tanto:
viver, viver... e sem ti!

Foto de Polhirev Alexey
Raios te partam por esta coisa que deixas em mim e que tanto tem de delicioso como de proibido...raios te partam pelas avalanches de sentimentos que provocas e que não me apeteciam... raios te partam pelas palavras, as imagens, os gestos, a voz... o conjunto de ti... raios te partam pelos momentos inesquecíveis que tatuaste no meu cérebro na secção recordações e que teimam em entranhar-se com sede de mais... raios te partam por gostares de pores-do-sol na praia, de histórias inventadas, de cabanas de madeira e bolos de chocolate... raios te partam por todos os estragos que vais provocar... e raios me partam a mim por te amar...
In “Cérebro Semi-Adormecido” de SM

Foto de Margarida Delgado
Não te quero incluir no meu inventário de perdas

Foto de Sharky
O que podia ter sido é uma abstracção
permanecendo memória perpétua.
Ecoam passos na memória
ao longo do corredor que não seguimos
em direcção à porta que nunca abrimos.
T. S. Elliot, de "Burnt Norton"

Foto de Christopher Voelker
E a noite é sempre o corpo anoitecido,
e o corpo é sempre a noite que se aguarda.
E o mundo só é mundo enquanto houver o corpo...
David Mourão Ferreira, em "Orquestra, flor e corpo"

Foto de Grzgorz Raczynski
"É sem nome, sem corpo, sem rosto, essa metade de mim a que chamam amor. É sem direcção, sem casa, sem rasto. E não! Não me visita, não me leva, não busca e também não me prende, não me controla, nem me domína. Não tem voz nem cheiro, mas eu tomo-lhe o pulso várias vezes ao dia e sei que vive. Bate hora a hora ao centro do meu peito. Sem som. Sem nome. Só assim: a respirar em mim."
A loira

Foto de Jeffery Scott
Não sou nada… arrancas-me à solidão da minha indiferença para me lançares numa montanha russa de sentimentos que só acaba com a loucura do desespero… deixas-me nú, indefeso, incapaz de enfrentar algo que antes de ti nem conhecia… Não sou nada… nunca serei nada para ti… por mim…
Sofia Mauricio

Foto de Maury Perseval
Link via Artnudes
"Solicito que abras a cancela baixa, que faças meia dúzia de degraus ao meu encontro e fujas comigo para dentro de um canteiro a coberto da luz que ainda houver na rua. Solicito que esgravates a terra e me faças uma cama de torrões macios e me ames ali. Grão a grão!... Enquanto o mundo dorme, esquecido das liberdades que deixou soltas ao correr da madrugada. Tu e eu: dois gatos vadios a morar no escuro. A preparar o reino. A ensaiar o pulo. Para quando soar o aviso que o tempo enfim chegou.
Solicito, em suma, que tomes de assalto os lugares de ninguém que trago no peito reservados a ti."
A Loira

Foto de Georg Suturin
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite.
Obrigado Maria pelas palavras da Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto de Yuri Bonder
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Herberto Helder, in Poesia Toda

Foto de Michael Ezra
cumplicidade, confiança e intimidade

Foto de Florian Stollinger
Não há nenhuma consolação no silêncio,
não repitas os enganos nem os
esquecimentos.

Foto de John Stillwagon
Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo
de "Há dias em que mais vale...", Ala dos Namorados

Foto de Steve Weiss
Do fracasso me redime a vontade de ter tentado.

Foto de Itzhak Ben Arieh
"Moro num covil cavado ao topo, onde os ventos uivam e as nuvens acasalam de frente para o sol do rio. Tenho de um lado um corrimão íngreme e do outro um simples abismo cortado a pique na pele da cidade. Quando chove as paredes apertam-se, róiem as assoalhadas e só deixam a minha cama. Intacta. Desfeita, mas intacta. Desenho vincos na rodilha dos lençóis e quando me canso falo com as formigas e com as lagartixas, pendurada no algeiroz e no telhado. Ás vezes janto com dragões, outras ouço histórias com bico de corvo, que é para ver se o sono chega e as noites pesam menos. Danço sem plateia por detrás de janelas seladas. Como quatro bagos de romã e bebo infusões sem nome. Só porque também tenho sede e às vezes me chegam fomes. Penso que podias transferir para aqui os teus grilhões. Podia ser casa nos espaços de tudo o que ainda te prende. Dou-te uma toalha lavada, três bolhas de sabão azul e branco e um par de meias grossas. Tenho para ti uma boneca zarolha, um cavalo de pau sem uma perna e um pião sem guita. Posso entreter-te os dedos mas não sei tirar-te o frio. Divido contigo as falas do sono e o que restou da adega. Mas moro num covil empinado ao sul. É inclinada a rua que vem dar aqui. E eu não sei se te agrada o suficiente para te esperar o esforço."
A Loira

Foto de Anthony Gordon
"Today I am
A small blue thing
Like a marble
Or an eye
With my knees against my mouth
I am perfectly round
I am watching you
I am cold against your skin
You are perfectly reflected
I am lost inside your pocket
I am lost against
Your fingers
I am falling down the stairs
I am skipping on the sidewalk
I am thrown against the sky
I am raining down in pieces
I am scattering like light
Scattering like light
Scattering like light
Today I am
A small blue thing
Made of china
Made of glass
I am cool and smooth and curious
I never blink
I am turning in your hand
Turning in your hand
Small blue thing"
Suzanne Vega - Small Blue Thing

Foto de Marcus Claésson
if then i meet you along the way
where the laurel trees surround us on every side
if then in a small place i stand alone
and turn my head and you smile there
if then i reach out and touch your form
where all your silences and your chaos meets
where everything joins and parts
if i may once clutch your heart
and pull its beauty to my face
there the bloodfall falls red river cracks
behind me lies black mother mountain
the goats wheel round
great sign of lust
how much i wanted you
and oh Christ how much more i want you now
the great pain
the great misery
to look and look
to look and look and look
and look and find
nihil"
Calling For Vanished Faces - Current 93

Foto de Andi Lolita
"Urras o teu brado de mata quando o Cruzeiro entra ao Sul... E vai a ti o olho da Princesa Anel de Chifre!... Por isso, vem e volta-me, Toiro Branco Prateado!... Vem-me buscar de novo, que está a acabar-se o meu tempo entre os homens. Volta-me e vem, agora que pouco lhes falta para que eu seja só memória vaga de um sono distraído. Vem, volta e atravessa-me ao lugar do Grande Rio Alado, Boizinho Branco das Perdidas Matas Fundas!... Escorro de Dorso dos Barrancos d'Água Doce... Minotauro Tupi do coração vermelho e branco... Mansa Besta que me dormes encarnada debaixo do umbigo. Sou poeira do barro encarnado do teu chão. Sou índia vermelha e branca marcada a ti. Eu sei. Sempre soube. Princesa Anel de Chifre."
A Loira

Foto de D. Brian Nelson
"The night I was going to die
I was sweating on the bed
and I could hear the crickets
and there was a cat fight outside
and I could feel my soul dropping down through the
matress
and just before it hit the floor I jumped up
I was almost too weak to walk
but I walked around and turned on all the lights
and then I went back to bed
and dropped it down again and
I was up
turning on all the lights
I had a 7-year-old daughter
and I felt sure she wouldn't want me dead
otherwise it wouldn't have
mattered
but all that night
nobody phoned
nobody came by with a beer
my girlfriend didn't phone
all I could hear were the crickets and it was
hot
and I kept working at it
getting up and down
until the first of the sun came through the window
through the bushes
and then I got on the bed
and the soul stayed
inside at last and
I slept.
now people come by
beating on the doors and windows
the phone rings
the phone rings again and again
I get great letters in the mail
hate letters and love letters.
everything is the same again."
Charles Bukowski

Foto de Alvin Booth
"Deste-me um banho de oiro e fizeste-me esfínge do que nunca pedi. Puseste-me em redor da cintura um par de braços que me prende atrás do tempo. E depois perdeste o exacto ponto da fundição dos corpos em alma e vida e derramaste na liga qualquer coisa, um qualquer fluído insolúvel, que nos quebrou a arte. Hoje gritas ainda a posse do bronze e ficas a bradar no meio da rua louvores de cobre, faíscas de loucura, massacrando-me a pele às tintas dementes com que insistes continuar a tingir-me. Puxas-me pelo viés das esquinas, obrigas-me o anel ao dedo, dizes que o mundo pergunta por nós e que a tesão dos outros precisa da nossa primeiro. Como antigamente. Como sempre foi. Como quando passeávamos incondicionais liberdades por entre os mortais como nós, e acordávamos com a nossa gula sôfrega a anestesiada fome dos outros.
Repetes tudo o que preferia que calasses. Lembras-me tudo o que não posso lembrar para que não se me agrave o sem perdão da perda. Mas é tua (sempre foi tua!) a arte da teimosia, essa que me obriga hoje a teimar mais do que tu, essa que me obriga ao sacrifício em nome do castigo maior que te quero: o esplendor das estuárias perfeitas, não vai voltar-nos nunca mais, Querida!... Jamais. A tua memória será, pela parte que me toca, o único lugar deixado à revisitação. Breve e apagada. Incapaz de nitidez. Como tudo o que perde o recorte da realidade."
A Loira

Foto de Alvin Booth
"Há cordas grossas por cada veio teu. Amarras esticadas ao músculo. Garrotes estanques, anilhas de aço, rótulas de pedra e sal. Pernas de mastro, assim és tu!... Então, firma-me a espiral magra no vértice. Como quem espeta um estandarte. Como quem crava uma bandeira. Reclama em mim tudo o que te pertence. Com pés nús de corsário. Com o molejo hirto de um corpo mais sábio dos equilíbrios do convés. Traz-me ao meio do triângulo e pede-me as manhas do camaleão, que eu dou. Todas. Uma a uma. As que te pertencem e são tuas. Protege-me e reclama-me. Protege-me e exige-me. Protege-me e toma-me. Protege-me e assalta-me. Como quem faz saber das vontades que tem. Como quem vem marear derivas entre a segurança de duas coxas hirtas. Como quem me puxa ao vértice de duas separadas pernas de mastro, onde uma tempestade maior me desaba o escorregar contigo."
A Loira

Foto de Patrick Gagne
"... Podia construir contigo um jogo de aparados golpes macios... Ser-te atenta... reagir instintos de instante a cada toque da tua língua... responder-te da única forma que sei: disparada no pico extremo dos efeitos que me atiças. Desalmada e com o cérebro esquecido no tapete, aos pés da cama. Podia jogar contigo desafios de causa e feito. Alucinar em parceria do outro lado da mesa onde sempre se sentam cumplicidades. Podia engendrar contigo um código matreiro. Dar-te coisas. Querer coisas. Podia!... Mas, entretanto, tu estendes corpos em paralelo e eu deixo a canção avançar-nos. Como se fossem os três dedos de voz com que me entras. Agora. Junto à música. Por instinto. Esquecido o cérebro. No desalmado instante em que alucinamos já: eu e tu."
"I met a woman long ago
her hair the black that black can go,
Are you a teacher of the heart?
Soft she answered no.
I met a girl across the sea,
her hair the gold that gold can be,
Are you a teacher of the heart?
Yes, but not for thee.
I met a man who lost his mind
in some lost place I had to find,
follow me the wise man said,
but he walked behind.
I walked into a hospital
where none was sick and none was well,
when at night the nurses left
I could not walk at all.
Morning came and then came noon,
dinner time a scalpel blade
lay beside my silver spoon.
Some girls wander by mistake
into the mess that scalpels make.
Are you the teachers of my heart?
We teach old hearts to break.
One morning I woke up alone,
the hospital and the nurses gone.
Have I carved enough my Lord?
Child, you are a bone.
I ate and ate and ate,
no I did not miss a plate, well
How much do these suppers cost?
We'll take it out in hate.
I spent my hatred everyplace,
on every work on every face,
someone gave me wishes
and I wished for an embrace.
Several girls embraced me, then
I was embraced by men,
Is my passion perfect?
No, do it once again.
I was handsome I was strong,
I knew the words of every song.
Did my singing please you?
No, the words you sang were wrong.
Who is it whom I address,
who takes down what I confess?
Are you the teachers of my heart?
We teach old hearts to rest.
Oh teachers are my lessons done?
I cannot do another one.
They laughed and laughed and said, Well child,
are your lessons done?
are your lessons done?
are your lessons done?"
... É a voz de Cohen em «Teachers», sopro-te pelo meio. Longe do fim. Ainda bastante longe do fim.
A Loira

Foto de Wiejewiatr
"E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior."
... de Herberto Helder, Magistral Amante de todas as Lolitas da Vida. Nem sempre belo.Perfeito. Cerradas barbas de beijo sábio. Belíssimo. Para mim, pelo menos, que o amo rente ao fio exacto das tuas costas nuas.
A Loba

Foto de Wiejewiatr
"O berço? O cadafalso? O endereço
que traz por dentro o sonho ou o terror?
Pela cor do lençol te reconheço,
ó máquina, tão branca, do amor!"
David Mourão Ferreira

Foto de Dale Montgomery
"Usa cada músculo tenso, cada veia a saltar-te atrás da orelha, no aperto da jugular que te acelera o pulso, para dobrar um pouco mais o corpo. Dá-lhe uma curva que me agrade, um movimento que me seduza... e eu prometo que olho para ti!... Faz o pino, torce-me uma aranha perfeita...circular... Prova que és mais e eu aplaudo-te o mortal à rectaguarda!... Quem sabe até te abro um beijo ao céu da boca!... Sei do desespero, mas preciso de te olhar primeiro. Ver de que coisa és tu capaz se eu te pedir, se eu te disser: dá-me o que ainda não me lembrei de querer!... Preciso de te ver primeiro. Talvez, então, me inspires e eu possa (quem sabe?!) sentir finalmente vontade de ir ver quem és... Quem sabe, então, depois (bem depois) me apeteça saber o teu nome: convocar-te a mim... despir de frente para os teus olhos três ou quatro acrobacias que conheço e exigir-te a cambalhota. Portanto, quando de novo me procurares, volta-me para além da promessa. Chama-me ao golpe. Assobia-me ao centro. Mas, até lá, evita-me o tédio salobro das ameaças hesitadas. Chega-me como eu gosto: cavalgando audácias. E eu mostro-te o troféu guardado às proezas dos audazes genuínos. E eu provo-te que é para além (muito mais além, muito mais ao poço) esta minha fama de saber fazer "Meninas Felizes e Tranquilas" na vida... "Meninas Felizes" são mais belas!... Verdadeiramente mais sedutoras porque libertas das tensas crispações da venta e da língua."
A Loira

Foto de Paulo Silvino
"É aí, exactamente aí, que me surges demasiado bela para que aceite deixar que me passes ao lado. Linda, quando ousas!... Piú bella, quando o peito se te empina vagamente ao confronto e o olho te foge adiante. Bella: fatalmente bella, quando o queixo se te ergue um pouco à frente dos esperados lugares das coisas."
A Loira

Foto de Bruno Bisang
"Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."
Bilhete, de Mario Quintana

Foto de Bruno Bisang
"Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.
Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.
Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!
Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito."
Pablo Neruda

Foto de Joyce Tenneson
"Devagarzinho se criva o corpo. Devagarzinho se criva o nervo que havia entre cada vértebra solta. Devagarzinho se contrai o tendão e se mói o limiar do músculo, no ponto exacto onde não era para fazer descer nenhuma dor. Na sombra se estala a pele ao espinho. Devagarzinho... Devagarzinho... Picos milimetricamente dispostos no lombo ainda arqueado. Devagarzinho e sem porquê. Devagarzinho e porque sim. E de rompante se arranca com os dentes cada pico enterrado ao lugar onde antes só o encanto de dez dedos abertos passeava. De rompante e sem hesitação, como resta que seja: numa espécie de última homenagem às mãos entretanto permitidas."
A Loira

Foto de Joel-Peter Witkin

Foto de Frank Boots
"Quero colo e quero coisas. Quero colo primeiro. Quero colo no fim. Colo pelo meio. O meio do colo no meio do colo. E preciso de te perguntar se sabes do pequeno monstro que estás prestes a criar?!... Se sabes o quão insuportável as vontades podem ser?!... Se sabes quantos maus hábitos vêm com os melhores vícios?!... Se sabes que a cada mimo teu me instigas à desmesura das fomes e dos quereres?! Perguntar-te se é isso que queres: juntar-te à tribo dos que não fogem diante dos caprichos que atacam a flor da pele... ser um fora-da-lei como eu, ser fora-da-lei comigo... E depois já não quero perguntar-te, já não quero saber se sabes!... Melhor que não saibas e não me respondas!... Que o teu colo seja só esse lugar ao alto, esse lugar onde te trepo "como quem chega ao cume do mundo", esse abismo ao topo para onde uma qualquer vertigem me puxa!... Sim, melhor assim! Para que te chegue como uma coisa pequena: simples e feliz. E então, sim: não te resisto...não me resisto... Dá-me colo e dá-me mais. Dá-me beijos e dá-me mortes. Dá-me pelo chão um tapete acima dos telhados de Bagdad. Quero colo e quero coisas. Quero o teu colo e quero coisas (todas as coisas!) contigo."
A Loira

Foto de Karim Ramzi
"Guarda-me um espaço depois do tornozelo... dentro da milimétrica geometria dos encaixes perfeitos... onde eu e tu parecemos anatomicamente pensados por uma inteligência que soube dos caminhos e do eixo coincidente dos tempos bem antes de nós dois juntos... num descaso sem acaso. Soube. Sabemos. Eu e tu. Agora."
A Loira

Foto de Ragno Andrzej
"Dás-me uma beira de cama contra a parede... uma beira de cama atrás da porta... do lado oposto ao correr do estore... ao cimo da escada... ao cimo da casa... na despedida da tarde. Dás-me uma beira de cama quando as palavras resvalam e os sentidos chegam à boca. E o mundo foge no limiar da rua. E eu não sei de ti senão onde estás. Agora. E não tenho para te dizer mais do que te faço. E não tenho para saber mais do que sinto. Ali. Onde tu também estás. Enquanto um abraço nos escorrega para uma beira de cama por fazer."
A Loira

Foto de Karen Crosby
"Sim, talvez te deixe sim... um pouco abandonada... um pouco em espera... um pouco mais triste, um pouco mais só... Talvez me perca e esqueça um pouco de ti. Mas não é meu o dom da ubiquidade Mulher-Loba e há uma mão estendida na madrugada que eu gosto de segurar... uma voz sem pressa e este falar baixinho que me abre a porta e um lugar ao fundo, entre as almofadas do sofá. Sim, talvez te fuja e te escape um pouco, sim... talvez te evite e finja não saber da chave, nem do número da porta, nem da cor da cama, nem do nome da rua... Talvez te deixe perdida nesse recostar das horas em que nada sabes de mim e já não me vês... porque não te chego, não me mostro e não te visito. Mas há essa voz, eu já disse!... Há este meu vício de só estar onde me sei e me quero... e este querer-me aqui. Agora. Exactamente á mesma hora em que não te chego porque dois braços subtis me cobrem com um lençol macio e esse mágico olho de caleidoscópio me vela ternuras rente ao sono da manhã branca."
A Loira

Foto de Loic Peoch
Arrancas à madrugada uma canção lá atrás e estranhamente gosto de voltar a ouvi-la. Estranhamente faz sentido que sejas tu a cantá-la por detrás do espelho. Só porque és tu. E então eu não me importo. Estranhamente peço-te mais. Outra vez. Só mais um pedacinho. O verso seguinte.
Come on, come on,
Come on, come on
Now, touch me, babe.
Can't you see that I am not afraid?
What was that promise that you made?
Why won't you tell me what she said?
What was that promise that you made?

Foto de Thierry le Goues
"Torces sobre mim o apelo das terras ao fundo. Agonias-me a cidade mais do que ela me azeda já. Sopras-me as beiras de cais onde sou feliz e o salobro lodo dos caixotes amontoados no porto, onde outras histórias me dão colos lavados de beijos. Vens e retomas-me viagens interrompidas pelo lado salgado do mundo que eu amo porque me lambe mais rente à alma, e onde eu chego para já não ser princesa de nada nem de coisa nenhuma. Só uma mancha mais loira embebida na mesma cashemira, ornada das mesmas contas, conchas e sedas, descalça aos mesmos guizos, pequena diante das mesmas famintas fomes."
A Loira

Foto de Tugrul Cakar
"Olhar sem remédio, o teu!... Esse que ainda deitas por cima do ombro, acreditando poder sinalizar-me nesse lugar parado onde já não estou!!... Vejo-te de frente, deste ponto mais adiante que habito, e penso: distorcido corpo o teu, Querida!... Corpo-teu hoje tão perdido à chama que me queimava!... Esbracejas o teu olhar retardado, mulher disforme de desinteressantes distorções estéreis!... Para quê perder tempo a dizer-te o óbvio?!...Daqui já só te vejo pela nuca."
A Loira

Foto de Farrokh Chotia
"The whole point of a picture is a certain intimacy, originally created between subject and photographer, that is then shared with the viewer. What distinguishes a good picture from an average one is the emotional content of the image. Film has the ability to capture not just light and shadow, but also the emotional state of the subject as well as that of the photographer. And this, ultimately, is what the viewer responds to: the mood, the state of being that is transmitted, from the location of the shoot, through all the complicated intervening technology of camera, laboratory, and paper, to the viewer's mind. My job is to infuse emotion into image."
Farrokh Chotia

Foto de Gabriele Rigon
"Não me olhes, Cria!... Não me olhes, Criança, que é vão o teu olhar. Comoves-me mas não poderás mover-me. Busco só um "Beijo da Rua". Preciso de mulheres fêmeas pelo tempo, mulheres com a idade das pedras. Vai matar-te esse olhar que generosamente vertes na minha direcção. Eu disse-te. Como num brando aviso, Criança que ainda és Cria... Eu falei-te! Repara um pouco nos sinais que te envio para evitar que te percas e partas. Escutaste o que te mostrei? "Eu não sei dançar assim tão devagar para te acompanhar!", eu disse. Desvia-te de mim, Cria! Miro outros vultos e não posso dedicar-me a ti. Movo-me para mulheres a que o tempo trouxe histórias e pedras!... Tu ainda não me podes entender e portanto te digo, não me podes amar. Não é amor isso que por ti anda e te engana sem dares por isso!... Afasta-te de mim que tudo o que poderia ter para te dar é só solidão com vista para o mar. Vai-te daqui!.. E não leves olhos rasos da água que em ti não quero!... Entende que sou só eu a pôr-te a salvo de mim!!"
A Loira

Foto de JS Rossebach
" Je m'y suis mise, les yeux dans les nuages blancs et gris qui roulaient dans le ciel comme des cailloux dans l'eau."
Alina Reyes

Foto de Howard Schatz
Que os teus braços saibam sempre encontrar os caminhos do meu corpo...

Foto de Dave Krueger
"How idiotic civilization is! Why be given a body if you have to keep it shut up in a case like a rare, rare fiddle?"
Katherine Mansfield

Foto de Dave Krueger
"It is our attitude toward free thought and free expression that will determine our fate. There must be no limit on the range of temperate discussion, no limits on thought. No subject must be taboo. No censor must preside at our assemblies."
William O. Douglas

Foto de Alva Bernadine
The nubile maker of beds
"... Fantástica casualidade esta que faz do dia de hoje a véspera do dia de amanhã, um ano depois!!...
... Implacável o tempo a suceder-se até sobre nós que eramos o seu capricho mais vaidoso... "Les Protegées"!...
Hoje, até o tempo já se cansou de nos ter apenas como mera e vã recordação.
Rói-nos a memória, o rasto, os vestígios. Rói-nos a história.
Parabéns, Querida!! Parabéns, que o fim merece uma celebração ainda mais elevada!... porque ao fim assiste afinal toda a consciência que escapa aos inícios, demasiado eufóricos e deslumbrados para que se lhes condene a imprudência de tamanha inconsciência!!
Em véspera de um lento e interminável ano de agonia sobre o dia de amanhã, sacudo um lençol branco no ar... ouço-o estalar como um chicote, assobiar no ar como um sabre afiado que corta tudo o que ficou suspenso aqui, amputando enfim tudo o que já não se vê.
Hoje, véspera do dia que cumpre o ano, sacudo um novo lençol no ar, estendo-o... estico-o... aliso-o... Faço a cama de lavado com roupa alva. Quero deitar-me num colchão mais branco."
A Loira