
Foto de Katarzina Widmanska
Sabes, como eu, que não tem que haver uma explicação metafísica para tudo. E é por isso que há um lugar onde jamais te perco. Nem que seja contra a parede em que me atiras, a cada vez que vens para me fazer marinhar ao espaldar da cama. Nem que seja contra a parede, Querida, a parede em que me lanço quando já nada em mim resiste aos dedos que me fechas em punho. Nem que seja (tu sabes!) atrás das mortes que em mim repetes.
A Loira

Foto de Aaron Hawks
Se te cortar os olhos, há um mar que te vem por trás e te engole inteira. Há uma lasca de espuma que te lambe em minha vez, um rasgão de água que te leva embora. E é por isso que te grito, quando te vejo no lugar de sempre: para te filtrar às marés que não mais importam.
A Loira

Foto de Aaron Hawks
Ás vezes a vida vem antes de ti. Outras chega depois, mas tu não vês. E então quando me olhas, já sou só uma língua de corpo cuspida entre a quadrícula fria do chão, uma tira de pele que podia ter sido peixe, duas golfadas de ar mais esbugalhadas a nadar para lá do rebordo da borda que me dá o prumo.
A Loira

Foto de Siro Anton
No reino das mulheres-abelha, há três favos no lugar do cérebro e meia-dúzia de punhados de mel a roçar o colo. No reino das mulheres-abelha, há um ferrão de aço macio, a cortar como manteiga, a luzir como um punhal. Chega-se-lhe a bailar por entre as telhas e é sem escada e sem corrimão, é sem rede de trapezista, sem ecos de querubim. Só de vento e só de pó. Só de asas e algumas penas. Como Deus quis e o Diabo gosta: servido a quente, comido a frio, sem talher nem guardanapo. Crú. Escorrido. Em sangue bem passado. Como convém à carne, quando vôa. Lá: no reino das mulheres-abelha.
A Loira

Foto de Delphine Le Berre
Monta-me ao redor de uma curva à escolha, uma sombra branda acerca da pele. E depois contorna quatro línguas de fogo por cima da espera. Para lamberes de dentro de mim, uma a uma, cada hora que passaste ao longe, cada instante a mais que te demoraste ao largo. Sem um qualquer fogo a devorar-te. Sem nenhum lume a consumir-me. Num lugar a vermelho e negro, por onde nos chegue a redenção.
A Loira

Foto de Bogdan Jarocki
Que fazes tu quando eu não venho? Será que fazes o mesmo que eu faço, e te distrais a descobrir a raiz quadrada do tornozelo, a calcular volumes concêntricos ao pé que te ficou para trás, e a perguntar pelo ângulo raso do joelho que deixaste afogado na penumbra? Será que fazes? Que será que fazes quando eu não venho, se acaso não for o mesmo que eu?
A Loira

Foto de Bill Henson
Título sugerido por Vanus.

Foto de Peter Berghman
Vem cá, então. E que não te assuste tudo o que há fora do lugar, nem te inquiete em demasia o arrumo invertido do reverso das coisas. Vem cá, então. Sem tremer diante de todas as blasfémias contidas nas coisas que renego e não reconheço. Sem receios, nem sentenças. Imperturbável diante dos meus arremessos, por onde se vão casas e crias, por onde se sacodem relógios e refeições, deveres e maternidades, papéis precoces a quem é assim: inapta e sem concerto, sem arrependimentos, nem esmeros vãos. Irremediavelmente imperfeita.
A loira

Foto de Michal Chelbin
"Diz-me: se eu puser quatro gotas de saliva numa ruga sem lençol... fazes um lago? Regas canteiros às avessas? Fazes o quê??... Mergulhas-me mais ao largo? Afogas-te onde há que ser? Diz-me. Diz e eu abro-te duas guelras mais rente à pele. Diz!... Diz que farás crescer um peixe vermelho a baixo da cintura, ou que nadarás mais em circulo... que hás-de guardar os olhos abertos sob a corrente e que trarás uma âncora mais forte para o meio das minhas pernas... quando elas não sabem bem se tremem ou se se afastam, se te rasgam duas margens ou um leito estreito. Como um fundo de banheira. Como um princípio de água. Uma promessa de mar que ainda não começou."
A Loira

Foto de RJ Muna
"And if I die today I’ll be the happy phantom
And I’ll go chasin’ the nuns out in the yard
And I’ll run naked through the streets without my mask on
And I will never need umbrellas in the rain (...)"
Tori Amos, Happy Phantom

Foto de Alvin Booth
"Se te largo um pouco da mão é só porque sei que corres tanto quanto eu, que te rebelas e perdes e outra vez te fazes capaz da manhã e da insónia, da voz e do silêncio, tanto quanto eu. E deixo-te ao longe para que não me vejas desabar ao fundo. Guarda as tuas forças para ti, que eu mordo e esperneio contra a vida, praguejo as minhas fúrias entre compassos mudos e sigo sozinha cravando um soco apertado à boca das palavras que me ferem. Quero-te a três palmos de distância, a meia centena de quilómetros do epicentro onde o vácuo se faz e as têmporas latejam, o ar rareia e os ouvidos começam a doer. Quero-te a milha e meia de segurança, para lá do ângulo recto que vai do cata-vento ao bico incendiado do raio. Depois eu volto. Depois eu venho. No tempo do resgate. Escavadas as escoras que hão-de contrariar a disfunção entre a altura em vertigem do eixo e a gravidade opaca do chão. Depois de abertas as brechas e dilatadas as folgas que hão-de evitar que o peso se nos desequilibre contra a pressão dos corpos. Eu volto, sim: venho a ti. Se então quiseres, quando chegar o tempo do resgate, virei por ti.
... E se te largo um pouco da mão, é só porque sei que respiras a salvo e que sobrevives aos golpes de superfície, imune às tempestades desabadas sem tu veres."
A Loira

Foto de Deutsch Philippe
"Não enchas o Espaço como enches a vida: de paixões rídiculas do tamanho de teres medo do Vazio."
José Gomes Ferreira, Passos Efémeros

Foto de Michael David Andre
Link via Conscientious

Foto de Piotr Kowalik
Se alguma vez te parecer ouvir coisas sem sentido
não ligues,
sou eu a dizer que quero ficar contigo.
Jorge Palma

Foto de Marius Krmpotic
"... Então põe. Põe de uma vez cada falange que te cose os dedos, cada dedo que te abre a mão... uma a uma. Como os dedos!... um a um. Um por um. Até serem cinco, até serem todos. Até lhes arredondares as pontas numa haste única. Até seres só um latejar cheio apertado ao fundo... encostado a um fim de esponja... atravessado em paredes de água... por onde cabe tudo e não há mais por onde fugir... e não há mais por onde escape senão o lamento da fome engolida."
A Loira

Foto de Stan Lieberman
A vida, Maria
Não passa de um dia
Corre, Maria
Que a vida não espera
De "Olha Maria", Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque

Foto de Martin Vrabko
Now you say you're lonely
You cry the all night through
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shared a tear
Remember, I remember, all that you said
You told me love was too plebeian
Told me you were through with me and
Now you say you love me
Well, just to prove you do
Come on and cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
I cried a river over you
I cried a river...over you...*
É-me bela e é-me azul. É-me azul, também. Talvez seja isso!... Como o rio. Como as coisas tristes. Pior que um céu cinzento. Como o de hoje. Como o que me amanheceu no peito. Como a saudade.
A loira
*[«Cry Me A River» - desconheço o autor. A voz é da Diana Krall]

Foto de John McCall
tenho saudades
tenho saudades tuas
tenho saudades de ti
tenho saudades da tua boca
tenho saudades
(dos beijos que a tua boca me dava)
tenho saudades
(indizíveis do que a tua boca me fazia)
tenho saudades tuas
tenho saudades
(saudades)
Alexandre Monteiro

Foto de John MaCall
Oferenda
Ofereço-te o meu corpo
Faz dele o que quiseres
Porque é o teu desejo
Que desejo

Foto de D. Brian Nelson
Olhas-me como se eu fosse ser para sempre o anjo loiro que não sou. Afastas com os dedos todas as manchas dos meus vícios e limpas com a ponta da camisa branca as marcas dos caprichos com que te chego. Depois colocas-me de costas para o espelho, para eu não ver que te sorrio já muito mais do que devia... Puxas duas almofadas à cabeceira, riscas outro fósforo, chamas-me "criança", prometes-me uma caverna com a tua idade e sopras-me entre fumo um poema de Bukowski que eu nunca mais voltei a ouvir em ninguém.
«majestic, magic
infinite
my little girl is
sun
on the carpet-
out the door
picking a flower, ha!
an old man,
battle-wrecked,
emerges from his
chair
and she looks at me
but only sees
love,
ha!, and I become
quick with the world
and love right back
just like I was meant
to do.»*
[*"Betting on the Muse: Poems & Stories"]
A Loira

Foto de Masao Yamamoto
"Atrás de ti deixas uma vela...
No teu encalço, permites uma luz...
Tu que te escondes na escuridão...
Tu que te escondes de mim...
Tu que na longa caminhada me esperas..."

Foto de Tim Sousa
"Dou-te uma lupa de verdes foscos!... Como um fundo de garrafa, uma lâmpada de candeeiro, uma folha crescida de selva, um pingo de clorofila, uma náusea, um vómito, um anel de satélite, uma lente de Lennon, um rebordo de cinzeiro, um caco de vitral lascado à perfeição das geometrias exactas... para que a mais indelével das distorções te traga ao centro das minhas mais irremediáveis inversões. E a cada vez que me estendo a ti, é só mais uma forma de te provar o quanto tudo é banal a seguir ao véu das aparentes impossibilidades. É só mais uma forma de te perguntar se ainda teimas em me encontrar mais do que o tédio da normalidade. É só mais uma forma de querer saber até onde queres permitir-te que eu vá, quão longe te é preciso que eu me atreva, quantas vezes mais te pede o apetite que eu te chegue. Até ao fatídico instante em que me darás razão e desabes sobre mim o irreparável desaire da repetição."
A Loba

Foto de Mona Kuhn
"Observo daqui, do fundo desenhado em tons de vapor de água, a aparência de tranquilas seguranças que ergues e iludes sobre um patamar de fragilidades várias. Observo-te a sobranceria e sorrio sem um movimento. Porque a um estender de braço poderia eu fender-te em duas, ganhar-te espaço, alongar-me dentro, devorar-te clemências à ponta das minhas unhas e ganhar-te antes do pulso. Podia apertar os nós dos dedos e mostrar-te esse pedaço de ti que nem tu própria sabes ao certo onde fica, esse mesmo que nem tu sabes exactamente que te existe dentro, e dizer-te «Estás aqui!». Podia eu fazer-te tudo o que não podes, mostrar-te tudo o que não queres, trazer-te tudo o que não deves!... Porque eu sei ser mutante e operar essa insuspeita metamorfose. Quando eu quero… Se eu quiser!... Eu sei, sim. Sei passar do outro ao mesmo. Sim, eu sei. Sei de como as falanges podem ganhar firmeza, de como os dedos podem transformar-se em aço implacável, como podem as mãos torcer-se e vir rasgar mais ao centro, teimar mais ao fundo, como podem tornar-se infatigáveis para lá da ilusão do verniz e dos anéis. Eu sei. Sei multiplicar mortes com golpes de pulso e buscar rendições com a ponta dos dedos. Sei sim, Querida, sei. Se eu quisesse agarrava toda a irritação com que me olhas e convertia-ta numa obsessão mais feliz (bem mais feliz) acredita-me!... Se eu quisesse, estendia-te aqui, agora: debaixo do encanto de dez pontas em estrela que me foi revelado sem complacências, do outro lado do mundo. Se eu quisesse, devorava-te um punho e trazia cá fora o derretido resto de todas as coisas que desmentes antes da hora... Mas como sou uma boa Menina, deixo-te em paz."
A Loira

Foto de Alfred Wickel
À noite ainda mais o corpo se ilumina
"Todos os movimentos
do amor
são noturnos
mesmo quando praticados
à luz do dia"
Coito, de Ferreira Gullar

Foto de Alfred Wickel
"Toquei à campainha (...)
e abriu-me a porta
Alguém que não tinha nascido
para abrir portas."
Julio Cortázar in Diário de Andrés Fava

Foto de Chris Johnson
"Falemos de vislumbres, então!! Seja. Tu insinuas-me o que vês e eu mostro-te o que olho. E guio-te. Levo-te lá, onde aprendi. Posso estender-te aqui, diante de mim. Mas não quero. Posso puxar-te para baixo ou deixar que subas um bocadinho. Mas não me apetece. E tu crês descortinar uma mão na sombra. E eu digo-te que são dez dedos que se alongam. Saberás onde? Acaso te perguntaste algum dia onde vão dar?... E olho-te e não sei se me comova ou me deixe ser só quem sou... não sei se te acorde ou se te deixe ao infindável sono dos inocentes. Mas tu vislumbras a mão e eu não posso deixar que a olhes e continues cega dos dez dedos que a alongam. Podia apontá-la a ti, sabes?!...Agora!... Podia mas não me movo porque é sem nome esse teu vislumbre!... Sairias espavorida, talvez assustada com o inexorável que poderia eu agora, se acaso quisesse, arrancar de dentro de ti. Fender-te em duas só para evitar que morras a acreditar que não há mais, que não há além, que és diferente de mim. Poupar-te ao altruísta destino dos que aceitam viver plenas metades.
E sigo vagamente o teu gingado entalado entre a fronteira das pudicas ousadias aceitáveis. Olho-te por cima da minha mais inofensiva distracção e deixo que acredites que não te vejo, que me enganas com a mesma facilidade com que crês impressionar o mundo à tua anónima passagem.
Porque quando tu falas e quando eu falo, há uma abissal distinção a impedir que nos possamos confundir ou sequer opor. Porque todas as coisas que digo, sei-as antes dos dedos. Como sei, antes de ti, onde (exactamente) te encontraria, se acaso quisesse chegar-te. Sem precisar sequer tocar-te. Tu não. Porque guardas demasiadas reservas do que te é semelhante e continuas a preferir o largo escudo da diferença, como se te garantisse a reserva ou a protecção que te acalma diante dos ermos extremos, quando o tropel se abeira perigosamente dos limites que ainda te são familiares.
Eu podia...., tu sabes?! Podia sim!... Porque eu sei das mãos e já fui dedos. Porque guardo nas falanges segredos que não mostro e podem as minhas palmas romper-te ao equilíbrio que conheces. A ti que vês a mão e desapercebes os dedos, a ti que preferes a anca ao flanco e cuidas de guardar reserva aos pregões que se gritam para cá da linha da cintura. A ti, que ainda só vislumbras."
A Loira

Foto de Chris Johnson
"Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...
(...)
Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço
E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão
(...)
Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade
eu não sei
Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio
me fale cada vez mais
Porque metade de mim
é abrigo,
mas a outra metade
é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê - la florescer
Porque metade de mim é plateia,
e a outra metade é canção
E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade...
também..."
Oswaldo Montenegro, Metade

Foto de Michel Charles
"Resisto-te há uns dias. Resisto a tudo o que se narra entre quatro linhas. Resisto a confinar-te à história. Picas-me e eu resisto. Atiças-me e eu resisto. Bicas-me ao de leve como um alfinete encastrado na retina. E resisto-te. Corro-te. Passo-te ora atrás, ora avante. Desvio-me de ti. Evito-te. Ás vezes enfrento-te mais um pouco (só um pouco) antes de bater em retirada. E tu mordes-me o canto da boca. Desces mais. Sobes mais. Entras-me mais. Lambes coisas caladas ao meu ouvido e eu resisto-te. E depois, quando já não aguento mais o limiar do teu insuportável, digo-te assim: Um dia... um dia (quando menos esperarmos) eu dou-te um conto que fale de camas onde nunca nada adormece. Digo-te. Eu. Um dia. Assim. Só assim."
A Loira